Era uma vez no velho xadrez.

Relaxamento, tensão e escolhas

Começo de jogo, primeiros movimentos, cavalo branco adversário avança e oferece um peão sem cobertura; este é tomado pelo cavalo preto. Uma escolha rápida. Mas foi armadilha. Rainha branca dá xeque, é cobrir o rei e perder o cavalo, não há alternativa. Eis uma vantagem a considerar. Sinto o sorriso do adversário. Isto me endurece. Há muito jogo ainda. Logo, logo, meu único cavalo dá xeque. É cobrir o rei e perder a rainha! Pronto. Virada. Mas não posso cair na mesma armadilha do relaxamento. Cavalo branco avançado, prestes a dar um xeque no rei rocado. Cobrindo-o perderei a torre, neste mesmo desenho tático minha rainha está ameaçada diretamente pela torre. São dois minutos dedicados ao estudo das possibilidades. Ao tomar a torre, perco a Rainha para o bispo de cobertura. Escolha pensada. Ainda tenho vantagem. Mas o pior ainda está por vir, movimento mal a torre para tirar do cavalo e a coloco à disposição. Será uma nova virada, será minha derrota. Só que a tensão mudou de lado. Chego a digitar no chat que foi um erro, mas não há movimento rápido. O vacilo paira no ar. Não envio a mensagem, aguardo. O adversário não viu. Movimenta o bispo, minha torre está a salvo. Quase ao final, opto por entregar as duas torres em troca de peças - a torre e o peão prestes a se tornar rainha. O tempo está se esgotando. Estas novas escolhas me obrigam a agir ainda mais rapidamente. Rei branco busca o tempo e empate. Sobraram-me peões. Dois deles agora são rainhas. Xeque-mate!

Quase Octa

Octa

Peres já estava me ganhando há muitas horas. Foram, despretensiosamente, 7 vitórias consecutivas. Sete! Isso não é pouca coisa, pois é sinal de que falta apenas uma vitória para o lendário Octa. O Octa é quase um conceito inatingível, é quando um de nós vence o outro durante 8 partidas seguidas. Nunca aconteceu. Peres já havia beliscado a Taça SwáSthya Octa diversas vezes, mas nunca conseguiu aquela última vitória, a derradeira, a necessária, para fechar o campeonato. Chego a pensar o que aconteceria se um de nós atingisse tal marca. Talvez uma estranha sensação brotasse dentro de nós, mexendo com a maneira como absorvemos a realidade. Afinal, o Octa é quase parte de uma magia, uma fantasia, algo que não pode acontecer. Algo com o qual brincamos, mas sabemos que ninguém conseguirá realizar, tal como brincamos com levitação ou teletransporte. Se um dia o Octa fosse conquistado, o mundo pareceria muito estranho, tanto para o vencedor, quanto para o derrotado. Uma vontade diferente de abrir um sorriso profundo e filosófico brotaria nas emoções de cada lado.

Mas todo esse misto de sentimentos duraria, talvez, um lapso de segundo. Como trata-se de um xadrez yôgi, as frustrações não são acompanhadas de tristeza, mas sim de aprendizado. E a euforia da vitória também não deve inflar o ego, mas fortalecê-lo com humildade. Depois de tudo, colocaríamos a taça do Octa novamente no armário do romantismo e arrumaríamos o tabuleiro novamente para seguir travando nossas batalhas.

Sempre haverá uma nova partida.

Villa

Copa do Mundo passada, nada de muito diferente no futebol apresentado pelos campos da África. Bom, novidade mesmo foi um país nunca antes campeão, seleção chamada carinhosamente pelos seus de 'Fúria". Mas, de volta ao tabuleiro virtual, que de real me causa fortes emoções, eu e meu compadre pintamos algumas bonitas telas que mereciam plano de fundo em mosaico em nossos desktops. Aliás, ele está jogando muito. Desconfio de um misterioso livrinho aberto à sua frente. Jogadas fortes, entradas violentas, armadilhas traiçoeiras, enfim, um arsenal de jogadas que me levaram a uma sucessão de derrotas poucas vezes vista. Confesso que tenho um probleminha: como o xadrez me dá muito prazer, jogo com um leve sorriso no rosto. Pode parecer soberba, mas não é. É problema mesmo, por vezes me atrapalha, já aconteceu d'eu perder sorrindo. Isso mesmo, podem rir. Sinto que se eu pudesse ver o rosto do Montagna durante uma partida, ele estaria com o semblante fechado, uma cara de David Villa dentro da área prestes a fuzilar o goleiro. Uma cara de furioso, mas com um jogo bonito, tal qual a seleção espanhola.

A mão

 
Estávamos a admirar a sucessão de vitórias do Montagna, umas belas, outras nem tanto, mas todas merecidas. Mesmo que você conteste a tese do merecimento no tabuleiro, digo quem ganha já é merecedor pela simples vitória, afinal, vacilos ou entregas fazem parte do jogo. E não adianta nada chorar na coletiva. É como dizer "tomamos gols em bolas paradas". Ora, bolas paradas estão em jogo! O que acontece muitas das vezes para que ocorra tais fatos é que o ganhador destas partidas entra num estado alfa de vitórias sequenciais, acerta a mão de uma maneira quase que assombrosa ao adversário, ou seja, enquanto um acerta a mão o outro perde a cabeça. Acabei de sair da coletiva de imprensa onde o Montagna atribuiu a atual derrota por ter perdido a mão, devido ao longo tempo de inatividade - coisa de cinco dias. Pois eu também atribuo a vitória por esta parada, mas principalmente por ter achado minha cabeça.

Filed under  //   chess   crônica   xadrez  

Ensinamentos de Montagna

Não perca os ensinamentos transcendentais de Montagna reproduzidos no filme Revólver. Dia 09 de junho próximo, às 20 horas, no Telecine Pipoca.

</object>

O vacilo de Peres

Num jogo que resolvi ser ofensivo, sem medo e sem firulas, senti a adrenalina subir com jogadas realmente coesas. Qualquer piscada de olhos poderia ser fatal a qualquer momento. Chimarrão. 1:20 da manhã. E então, Peres, para realmente variar, vacila. Papei o bispo dele para igualar as peças especiais, ficando com vantagem de um peão e melhor posicionamento de peças. Aliás, BEM melhor posicionamento de peças.

Vacilo-de-peres
Peres dando xeque em Montagna num claro ataque-suicida. Não tão claro assim durante a madrugada.

O resto? A mesma história do meu post anterior: Montagna, the winner!

1. e4  e5 2. d4  Bb4+ 3. c3  Bd6 4. Bc4  Nf6 5. Bg5  exd4 6. Qxd4  O-O 7. e5  Qe8 8. Bxf7+  Rxf7 9. Ne2  Bxe5 10. Qh4  Nd5 11. O-O  d6 12. f4  Ne3 13. Rf3  Nf5 14. Qf2  Bf6 15. h4  Bxg5 16. hxg5  Qe7 17. g4  Nd4 18. Nxd4  Bxg4 19. Re3  Qd7 20. Qg2  Rxf4 21. Qxb7  Qf7 22. Nd2  Qh5 23. Qxa8  Qh4 24. Qxb8+  Rf8 25. Re8  Qf2+ 26. Kh1  Bf3+ 27. Nd2xf3  Qxf3+ 28. Nxf3  g6 29. Rxf8+  Kg7 30. Rf1  h6 31. Qxc7+  Kxf8 32. Nd4+   1-0

Adeus, Rainha!

Lancei a isca e o Peres caiu na rede. E, já sabe, né... caiu na rede é peixe!

Baila-rainha
Montagna a jogar. Qual será o próximo movimento?

Fim

Final feliz para as brancas!

Resposta

Você sabia que este jogo dos "solitários" não acabou empatado?

Se você tem alguma opinião de como isto pode acontecer, escreva-nos.
A resposta mais votada receberá nossas considerações mais sinceras.

Solitários

Solitarios

Como se fosse um acordo feito entre os peões, bispos, torres, cavalos e Rainhas, todas as peças resolveram sair na segunda partida para boicotar a revanche que prometemos não fazer no mesmo dia. A decisão era um embate diário, e a quebra desta lúcida regra que privilegia o rendimento profissional e a produtividade técnica provocou esta greve de peças que vemos na imagem. Restaram os Reis do tabuleiro, sempre dispostos para uma nova batalha, ávidos por embates em sequência, infindáveis e infinitos. Só que desta vez acabaram solitários, amargando o abandono de seus súditos cansados de tanta violência num mesmo dia.

Alinhada

Mate0001

Costumo comparar xadrez com futebol. Vejo que o pensamento estratégico de um serviria para o outro, ou que o ensinamento da derrota do segundo faria bem ao primeiro. Fico a exercitar esta relação em meu dia a dia. Considero o seguinte: no xadrez a estratégia deverá haver, mas não será tão decisiva se você não aliar talento para superar as armadilhas adversárias; já no futebol o talento é fundamental, sendo ele próprio, em muitas vezes, considerado a própria estratégia. Como no futebol não tenho o poder de decisão - senão demitiria o técnico do meu time - torço para que o talentoso decida o jogo. Já no xadrez, com todo o poder em minhas mãos, tento induzir o adversário ao erro. Observe esta vantagem final. Foi o resultado de uma alinhada da Rainha com o Rei, uma jogada pintada há pelo menos dois movimentos antes da tomada. Até aquele momento estava eu em desvantagem de um Bispo. Sir Montagna não viu porque desloquei o foco para as tabelas. Digamos que, aliada ao roque, foi uma vitória estratégica. Como um gol num chute preciso, de dentro da área, com a bola cruzando lentamente entre o goleiro e a trave.